O Cisma Imaginário
O verdadeiro sentido das consagrações de 1988: a continuidade da Tradição diante da crise pós-conciliar.
Quase quatro décadas após as consagrações episcopais de 30 de junho de 1988, o debate acerca de seu significado permanece longe de esgotar-se. À medida que novas sagrações são anunciadas e a questão da legitimidade, da obediência e da fidelidade à Tradição volta ao centro das discussões, torna-se oportuno revisitar análises que, já nos anos imediatamente posteriores aos acontecimentos, procuraram situá-los em seu verdadeiro horizonte teológico.
É nesse contexto que trazemos o artigo “O Cisma Imaginário”, de Thomas Aissenegg, originalmente publicado em abril de 1995 no periódico Le Carillon Catholique e posteriormente reproduzido na revista Iesus Christus. Heri, Hodie et in Saecula (Distrito da América do Sul, nº 59, setembro/outubro de 1998). O texto enseja enfrentar a questão de princípio que as consagrações suscitaram e ainda hoje suscitam: em tempos de crise, qual é o critério último — a obediência aparente ou a integridade da fé?
Ao republicá-lo, não buscamos reabrir disputas estéreis, mas oferecer ao leitor elementos históricos e doutrinais que ajudam a compreender por que os acontecimentos de 1988 continuam a projetar sua sombra — e sua luz — sobre o presente.
O CISMA IMAGINÁRIO
Desde 30 de junho de 1988, quatro Bispos foram agregados à Fraternidade São Pio X para suceder ao citado Arcebispo Marcel Lefebvre, que havia fundado essa Fraternidade em 1970 e ordenado mais de 300 sacerdotes desde a sua fundação. Essa garantia de uma continuidade na sucessão sacerdotal foi adquirida ao preço de uma ruptura de relações com a Santa Sé. Este acontecimento pode ser julgado de diversas maneiras. Alguns dos que durante anos haviam apoiado Monsenhor Lefebvre o criticaram por haver consagrado os Bispos, o que teve como consequência a declaração de sua excomunhão. Sem negar seus méritos por haver resistido ao modernismo, sustentam que, por sua parte, foi temerário ao rejeitar o compromisso oferecido por Roma, e que tal desacordo constituiu um desastre para a Fraternidade e para a Igreja. Outros sustentam que as consagrações constituíram um gesto audaz destinado a assegurar o triunfo da fé restaurada.
Os juristas e historiadores poderão ponderar essa questão durante anos, sem poder alcançar uma conclusão. A história não é uma ciência em que se possam repetir experiências e submeter alternativas a textos. A questão é teórica. As excomunhões, sejam válidas ou não, podem ser levantadas, mas não ocorre o mesmo com as consagrações. O importante para nós é saber como viver como católicos em um mundo que nos é hostil. Deixemos que os especialistas exerçam sua sagacidade para debater entre si a questão de resolver se os acontecimentos de 30 de junho de 1988 foram temerários ou audazes. Nós temos, simplesmente, o dever de perseverar na fé.
Ainda que parecesse claramente um erro o gesto de Monsenhor Lefebvre, isso não mudaria em nada o fato de que a Igreja se encontra infectada pelos males do modernismo, do liberalismo e do ecumenismo, e que devemos proteger-nos contra eles. A justa análise feita por Monsenhor Lefebvre sobre a enfermidade que reinava na Igreja permanece sem mudanças depois do drama de 30 de junho. Desde 1970 diagnosticou corretamente como um mal mortal o abandono da Tradição, e continua tendo razão tanto agora como antes. A verdade não muda. Uma pequena quantidade de estricnina em uma xícara de café já basta para torná-la mortal; não se resolve nada declarando que, em seu conjunto, o café está bom. A Igreja moderna, corrompida por ideologias que lhe são estranhas, dispensa veneno aos fiéis inocentes. A única via que se nos oferece é a de permanecer firmemente ligados aos sacerdotes que continuam a nos prodigalizar o verdadeiro alimento espiritual de que temos necessidade.
Alguns tradicionalistas poderão reintegrar-se sob a jurisdição dos Bispos modernistas se o Papa os ameaça com a excomunhão, mas a maioria não se deixará intimidar. Não é o momento de perder o ânimo. Muita gente se queixa do triste estado em que se encontra a Igreja; Monsenhor Lefebvre é um dos poucos que fizeram algo para remediar isso.
Os que transigem a fim de poder celebrar sua Missa, aceitando o preço de renunciar à sua liberdade de palavra, rapidamente se darão conta de quão pouco vale o negócio que consumaram.
Quando se suplica para obter um direito, é porque se concede que os demais têm o direito de retirá-lo. Os que se contentam com a Missa tridentina sem reservar para si o direito de defender a fé não são tradicionalistas, mas antes “sentimentalistas”.
O fracasso que a Fraternidade São Pio X teve quando buscou concluir um acordo com as autoridades romanas é decepcionante, mas não é uma derrota. A verdadeira derrota teria sido sacrificar os princípios por vantagens políticas temporárias. Tal é a política que desde 1962 persegue o Vaticano com respeito ao comunismo (basta pensar na traição cometida pelo Cardeal Mindszenty), mas não é uma maneira de agir conforme a fé. Se bem que a crise de 30 de junho de 1988 possa originar novas dificuldades à Fraternidade no cumprimento de suas tarefas, o inconveniente que ocasiona no espírito de alguns o fato de haver sob ela a acusação de cisma não é tão grave, se comparado com a importância de preservar sua integridade e sua liberdade.
A existência da Fraternidade, enquanto organização que escapa ao controle dos Bispos diocesanos, foi salvaguardada, e devemos reconhecer nisso uma feliz saída. As condições ditadas por Roma para uma reconciliação teriam destruído essa independência; Monsenhor Lefebvre foi objeto de críticas por haver detectado e evitado essa manobra. Aqueles que emitem tais críticas dizem que lhe faltou confiança nas autoridades romanas. É uma questão de opinião. Mas, se as autoridades romanas houvessem desejado instaurar a confiança, poderiam tê-lo conseguido anulando primero a injusta suspensão a divinis que pesava desde 1976 contra Monsenhor Lefebvre.
Do ponto de vista romano, o objetivo da reconciliação era submeter o movimento tradicionalista ao controle dos Bispos diocesanos. Mas é justamente porque os Bispos diocesanos não lhes proporcionam alimento espiritual que esses católicos apoiam a Fraternidade. Não devemos temer a etiqueta de “cismáticos” lançada contra nós por pessoas que não entendem o contexto dos acontecimentos de junho de 1988, pois essa etiqueta não nos pertence, simplesmente porque recusamos abandonar nossa fé. Uma excomunhão (por válida que seja, e não é o caso) não constitui um cisma. O cisma grego só se consumou depois de vários séculos e nunca foi totalmente aceito pelo mundo eslavo, até que as pressões políticas o tornaram inevitável.
OBEDIÊNCIA OU FÉ?
Alguns afirmam que o Arcebispo foi excomungado por causa de sua desobediência escandalosa ao consagrar Bispos por sua própria autoridade. A sanção prevista pelo Direito Canônico em semelhante caso é a excomunhão. Isso é exato, mas há outros elementos que devem ser considerados.
A própria lei reconhece um estado de exceção em que se podem tomar medidas excepcionais, e que, enquanto dure o estado de exceção, as restrições normais previstas pelo direito eclesiástico ficam suspensas para prover ao cuidado das almas. O estado atual da Igreja constitui um caso de exceção. Quem duvida disso tem o direito de sustentar seu otimismo, mas não se pode condenar pura e simplesmente como cismáticos os que julgam de outra maneira este momento. A história mostrará quem tem razão. Ainda que um indivíduo se equivocasse persuadido de que existe um estado de exceção, não seria culpado de haver violado a lei por razão de suas convicções.
Sabemos que a obediência não é um fim em si mesma. A obediência absoluta não é uma virtude cristã; equivale a um estado de escravidão. Há uma hierarquia nas virtudes; a obediência é uma virtude moral, e acima das virtudes morais encontram-se as virtudes cardeais, como a justiça e a prudência. Acima delas estão as virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade. É mau obedecer a uma ordem contrária à justiça e prejudicar a fé em nome da virtude inferior da obediência. Algumas pessoas agem como se as três virtudes teologais fossem a obediência, a obediência e a obediência. Esquecem que a violação da Missa romana constitui em si mesma um ato de grande desobediência.
Ninguém tem o direito de desobedecer ao decreto solene de São Pio V. O único meio de eludir a Quo Primum (bula que codificou a Missa tridentina em 1571) é com um engano, e esse foi o meio ao qual recorreu a hierarquia para impor o Novus Ordo.
A lealdade e a obediência devidas ao Papa são, evidentemente, notas essenciais da verdadeira catolicidade. Mas imaginar que o Papa não possa agir de maneira desviada e ainda má é um erro. Queremos o Papa, mas a história e o bom senso mostram que até um homem grande e atraente pode cometer graves erros. A nova missa é um deles. É uma “invenção” fabricada por maçons e protestantes. Nenhum católico tem de se desculpar diante de ninguém por recusar-se a reconhecê-la. Por obediência, muitos se acomodam a essa novidade, ainda que a façam sofrer. Estoicamente a fazem, “como se fosse um sacrifício”, que pode ser oferecido como expiação por si mesmo.
A IGREJA DE SEMPRE
Mais cedo ou mais tarde, a Igreja será restaurada quando surja um Papa que tenha a coragem de condenar os erros do Vaticano II e os frutos deste. Mas não temos de esperar indefinidamente. O Papa Pio IV já condenara o Vaticano II mil e quinhentos anos antes de seu começo. Em 1458, sua bula Execrabilis condenou qualquer pessoa que ousasse convocar um concílio para alterar qualquer ensinamento dogmático1.
Enquanto isso, o Papa pode continuar tentando salvar a Igreja à sua maneira, no espírito do Vaticano II. O problema do liberal é que quer agradar a todo o mundo. Mais cedo ou mais tarde deverá reconhecer que é estéril situar-se no “extremo-centro”. Quando estiver cansado e chamar em sua ajuda, estaremos aqui. Manteremos a Tradição católica em previsão do dia em que ela volte a estar devidamente resguardada.
Nossa obrigação de desobedecer a ordens ilegais não contradiz nossa lealdade à cátedra de Pedro. Não fazemos do Papado um ídolo, exagerando fatalmente o alcance do dogma da infalibilidade pontifícia; ela se limita à função de Doutor da Igreja, que se exerce dentro de limites previstos. Tal carisma não impede que o Papa cometa graves erros em sua conduta pessoal e em seus atos públicos, inclusive no exercício de sua autoridade administrativa.
Quando o Papa São Pio V publicou as leis retificadoras da Missa, não violou os ritos estabelecidos nas comunidades que utilizavam outros missais havia duzentos anos ou mais; permitiu generosamente que subsistissem costumes legítimos. Mas a Missa Nova de 1969, assim como a reforma da vida católica que a acompanhava, foram impostas por meio de uma combinação de enganos e de poder digna de uma ditadura comunista. Essa injustiça fundamental faz com que o decreto de Paulo VI sobre a Missa Nova seja nulo. Do mesmo modo, a ordem inicial de dissolução da Fraternidade Sacerdotal São Pio X vê-se invalidada por sua injustiça.
O conceito católico de autoridade implica que ela seja dada aos homens por Deus com vistas a manter o bem comum e preservar a fé. Se ocorre que alguém dá uma ordem contrária à razão ou à moral, ou que é prejudicial à fé, abusa de sua autoridade e não se deve obedecer-lhe.
Até mesmo a filosofia pagã das democracias ocidentais reconhece o fato de que a autoridade não é absoluta e que está submetida a limites de ordem moral. Desde Nuremberg, os aliados rejeitaram admitir a declaração “Não fazia mais do que obedecer às ordens” como desculpa por parte daqueles que haviam cometido crimes de guerra.
COMBATER O ERRO
Os católicos devem resistir a toda tentativa que tenda ao enfraquecimento de sua fé, ainda que se trate de uma ordem emanada da mais alta autoridade da Igreja. A exigência de deixar de dizer a Missa de Sempre ou de assistir a ela é e será sempre um abuso de autoridade por parte do Papa, e opõe uma resistência legítima da parte dos católicos que sabem que essa Missa é indispensável para sua vida espiritual.
Qualquer pessoa tem o direito, em virtude da lei natural, de um culto verdadeiro segundo o costume de seus antepassados. Tal direito não pode ser abolido, nem sequer pela autoridade papal, que não recebe sua autoridade senão em vista da propagação da fé e não em vista de sua extinção.
Pode-se abusar da autoridade e recusar-se a prestar justiça, como se fez primeiro quando se ordenou o fechamento do Seminário de Ecône em 1975, e depois quando Monsenhor Lefebvre foi suspenso de todas as suas funções sacerdotais. O Arcebispo foi condenado sem processo e todos os recursos legais foram anulados por um poder burocrático arbitrário.
A crise atual é o fruto amargo dessa semente envenenada. Enquanto Roma recusar admitir o erro que cometeu Paulo VI ao abusar de sua autoridade, não haverá paz verdadeira. O pontificado atual teria podido tomar um novo caminho se tivesse revogado a ordem de dissolução da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, mas não foi esse o caso.
Desgraçadamente, os que governam afirmam com frequência que a melhor correção que se pode fazer diante de um erro é agravá-lo. O Santo Padre faz campanha vigorosamente contra a injustiça na América Latina e na África, fingindo não notar a injustiça cometida por sua administração em Roma.
O fato de que o Papa não tenha logrado atacar realmente a causa desse conflito se manifesta em sua carta apostólica Ecclesia Dei (1988): “A todos esses fiéis católicos que sentem um apego por algumas formas litúrgicas e disciplinares anteriores da Tradição latina, quero manifestar-lhes minha vontade de facilitar sua comunhão eclesial, recorrendo às medidas necessárias a fim de garantir o respeito de suas aspirações legítimas.”
João Paulo II não entende que nossa fidelidade à Missa tradicional não é uma questão de sentimento, mas de convicção refletida.
Não pedimos nossa Missa porque a queiramos, mas porque é a expressão perfeita da fé. Falar de nossa Missa qualificando-a de “forma litúrgica anterior” é um absurdo.
A Missa de São Pio V não é anterior, é atual e perpétua.
A maioria dos católicos tradicionalistas se impressiona pouco com “as medidas a fim de garantir o respeito de suas aspirações legítimas” que o Papa promete tomar “com o apoio dos Bispos”. Que primeiro o Papa o demonstre, dando verdadeira liberdade para a celebração da Missa tradicional e anulando a excomunhão de Monsenhor Lefebvre.
À espera de que isso se produza, não nos deixemos enganar por promessas vagas que permitem esperar “uma aplicação generosa das diretivas (…) relativas à utilização do missal romano”. Se o Santo Padre ainda não pode conseguir que os Bispos obedeçam a uma simples diretiva, como poderá garantir que os direitos dos tradicionalistas serão respeitados?
Por ora, a verdadeira face da Igreja conciliar se ilustra pelas medidas tomadas pelo Arcebispo de Ottawa. No mesmo dia em que os Bispos foram consagrados em Ecône, Monsenhor Plowde fez ler uma carta aos sacerdotes oratorianos comunicando-lhes a expulsão de sua diocese depois de quase dois anos de ministério frutuoso. Moviam-se estritamente dentro dos limites prescritos pela letra da lei, mas suas missas, celebradas em latim segundo o Novus Ordo, eram demasiado tradicionais para o Bispo de Ottawa. Em consequência, os oratorianos foram proscritos. Isso nos dá uma ideia de qual será a generosidade que manifestarão os Bispos com respeito aos direitos dos fiéis apegados à Tradição.
A AUTORIDADE PONTIFÍCIA
A autoridade do Papa não é um fim em si mesma, particularmente na situação atual, na qual o Papa está imobilizado por sua adesão à colegialidade e não pode decidir nada sem a aprovação das Conferências Episcopais nacionais.
Essa diminuição da autoridade pontifícia no caso Hunthausen2 demonstra claramente que nos deixaram sozinhos na defesa da fé.
Mais cedo ou mais tarde, o Papa terá de declarar nula a excomunhão de 30 de junho de 1988 se deseja que sua administração recupere sua credibilidade. Ninguém pode tolevar a sério as sanções tomadas contra esse santo Bispo, no mesmo momento em que os Bispos se comportam como bufões e filhos do povo, governando com total impunidade.
A excomunhão é uma farsa que se desmorona quando se vê religiosos e políticos que podem permitir-se promover o aborto sem perder sua condição de católicos. Se o Santo Padre não pode utilizar a arma da excomunhão para os fins para os quais está destinada, é porque ela já não tem nenhuma significação. Posto que agora voltou a pôr em uso essa espada enferrujada, esperemos que tenha o valor de utilizá-la contra aqueles que realmente merecem sofrer os golpes.
CRITÉRIOS DE UM CISMA
Em todo caso, não é a autoridade, mas a fé que permite determinar em que caso há cisma. É a fé que se professa a que determina se se faz parte da Igreja, e não uma carta do Cardeal Gantin.
Uma declaração de excomunhão não é um sacramento. Se se afirma que o Arcebispo está excomungado porque rejeita a fé, não haverá nenhuma prova que o demonstre, a não ser esse estribilho que se canta até a saciedade, que pretende que ele tenha rejeitado o ensinamento do Concílio Vaticano II.
Roma tolera em qualquer lugar a desobediência por parte dos Bispos que alentam as sandices mais flagrantes contra uma liturgia decente e a sã doutrina. A única coisa que não tolera é a menor crítica que se faça contra os documentos do Vaticano II ou contra a reforma litúrgica. Fez-se um bezerro de ouro do Vaticano II, e qualquer que não se prosterne será perseguido. Porém nada permite justificar semelhante atitude, nem o Concílio mesmo, que não é dogmático e, portanto, não é infalível, salvo na medida em que repita ensinamentos que já eram infalíveis. Todo católico tem o direito de formular um juízo reflexivo sobre os benefícios do Concílio e de tirar suas próprias conclusões a partir dos fatos.
As consequências dos decretos do Concílio de Trento são historicamente bem conhecidas e foram frutuosamente postas em vigor por São Pio V. Nesse caso, tratava-se de uma verdadeira reforma, o que redundou em um crescimento da vitalidade da fé. As consequências da reforma (como a chamam) que se seguiu ao Vaticano II são igualmente bem conhecidas: milhões de católicos deixaram de ir à Missa, muitos dos que ainda estão nela a sofrem mais do que dela se beneficiam e, acima de tudo, milhões de católicos não têm nenhuma ideia precisa do que significa a fé que professam. O saque da liturgia romana é, ademais, uma violação flagrante dos decretos do próprio Concílio, que declarava que “todos os ritos antigos deviam ser venerados e cuidadosamente conservados (…) O latim deve ser conservado, o canto gregoriano deve ser conservado”. É irônico que Monsenhor Lefebvre tenha sido condenado por haver desafiado o Concílio, enquanto seus seminários são os únicos lugares onde se aplicaram esses decretos.
VATICANO II OU MORTE
Os documentos do Vaticano II revelam algumas passagens que são úteis para resumir os ensinamentos dos concílios anteriores e os decretos pontifícios. É absurdo sustentar que Monsenhor Lefebvre rejeitou tais ensinamentos. De fato, ele os defendia mais vigorosamente que o próprio Papa; mas, como rejeitou as novidades duvidosas que foram semeadas nos documentos, Monsenhor Lefebvre foi condenado como cismático.
Durante esse tempo, os modernistas que rejeitam os ensinamentos que o Concílio retomou de um passado imemorial não sofrem nenhuma medida disciplinar. É absurdo. Em definitivo, Monsenhor Lefebvre encontra-se excomungado, e seu seminário está condenado, porque se negaram a abandonar a fé de seus antepassados.
O Cardeal Ratzinger declarou frequentemente que “não é possível pôr em dúvida a doutrina autêntica do Concílio Vaticano II” (tal como o expressava em sua carta de 20 de janeiro de 1986 a Monsenhor Lefebvre). Depois, começou a dizer que o Concílio Vaticano II não pode ser considerado como um superdogma que suprima todos os ensinamentos anteriores. Mas essa é uma confissão demasiado débil, que chega demasiado tarde. Quando as autoridades romanas começarem realmente a corrigir os erros do Concílio Vaticano II, então estarão dispostas a negociar de boa-fé com os tradicionalistas: não haverá matéria de discussão.
Atualmente, como estão obcecadas por sua necessidade de defender o Vaticano II e, sob sua influência, o ecumenismo agnóstico, amputaram a verdade. As autoridades romanas não têm argumentos; têm de contentar-se com exigir a obediência. Desde quando a Igreja Católica carece de argumentos lógicos frente aos hereges e aos cismáticos? Como não podem refutar Monsenhor Lefebvre, então… o condenam. Não é uma maneira católica de agir. Então nos perguntamos: quem está em cisma? Rezemos para que o Santo Padre reconheça logo seu erro e o corrija. Por ora, contenta-se em manipular, sob diferentes pretextos, o argumento da autoridade.
Em sua carta de 2 de julho de 1988, o Santo Padre sustenta que “a origem deste ato cismático pode buscar-se em uma concepção incompleta e contraditória do que é a Tradição (…) Não se leva em conta o caráter vivo da Tradição (…) Mais particularmente contraditória é uma concepção da Tradição que se opõe ao Magistério universal (…) É impossível permanecer fiel à Tradição rompendo o vínculo eclesial com o apóstolo Pedro”.
Apesar do respeito com o qual devem ser acolhidas estas palavras, essa crítica é totalmente errônea. Monsenhor Lefebvre sempre quis evitar a ruptura com Roma, apesar das perseguições que sofreu. Não é ele quem excomunga quem quer que seja. Como disse em sua alocução de 30 de junho de 1988: “Longe de nós a ideia de nos separarmos de Roma”. Isto é, da Roma verdadeira, da Tradição católica. Em vez de nos dizerem que a Tradição não pode subsistir se se opõe à autoridade, o Santo Padre poderia perguntar-se como é possível exercer verdadeiramente a autoridade de Pedro opondo-se à Tradição. O Concílio Vaticano I o ensina clara e dogmaticamente: “A autoridade que detêm Pedro e seus sucessores não lhes foi conferida para proclamarem alguma doutrina nova, mas somente para explicarem e defenderem o que foi transmitido pelos Apóstolos” (Vaticano I, Const. Pastor æternus).
Não é Monsenhor Lefebvre quem criou a situação escandalosa que faz com que a Tradição e a autoridade atualmente se encontrem opondo-se uma à outra. Esta é obra dos Bispos ingênuos que votaram a favor dos documentos duvidosos do Vaticano II com todas as suas obscuridades e equívocos calculados, sob o pretexto de que não se tratava ali de outra coisa que de um concílio pastoral. Enquanto Roma sustentar que o Vaticano II não pode ser posto em dúvida e apelar a todos os recursos ao seu alcance para asfixiar as críticas, a decomposição seguirá seu curso. Quando a verdade é borrada na Igreja, não se pode manter a unidade por meio da obediência.
Não se pode condenar um católico porque recuse conceder ao Vaticano II um grau que não tem. Outros concílios ecumênicos definiram artigos de fé, explicitando assim o que antes era confuso; o Vaticano II fez o contrário, tornando obscuro o que antes era claro. Como se isso não fosse suficiente para incitar-nos a receber os ensinamentos do Vaticano II com prudente ceticismo, também se pode levar em conta um acontecimento de sinistros presságios: um tratado concluído entre o Vaticano e o Kremlin3 para asfixiar toda crítica ao comunismo, apesar dos esforços de vários centenas de Bispos para torná-lo efetivo durante o Concílio. “Com isso só, já se fez o bastante para cobrir de vergonha toda a história”, escreveu Monsenhor Lefebvre em sua “Carta aberta aos católicos perplexos”.
O TRADICIONALISMO
Um erro corrente consiste em imaginar que os tradicionalistas rejeitam absolutamente qualquer mudança. Não é assim.
Aceitam-se as mudanças na medida em que se tratem realmente de mudanças vitais, o que significa que tais mudanças correspondam a um curso natural, em conformidade com a verdadeira natureza do que muda. Um jardineiro aceita as mudanças que apresenta sua árvore frutífera com o correr dos anos, durante os quais sua plantação cresce; também pode influir na forma que ela toma por meio de podas prudentes. Mas não corta a árvore pelas raízes para substituí-la depois por uma árvore morta, qualificando essa maneira de agir de “mudança vital”. Analogamente, os tradicionalistas resistem quando se faz violência contra a fé viva, e têm pleno direito de resistir.
Precisamente porque nossa Tradição está viva é que rejeitamos suprimi-la.
Os tradicionalistas não se opõem absolutamente a toda mudança, nem se opõem à autoridade por princípio. Somente quando a fé está em perigo afirmamos nosso direito de recusar as ordens que emanam de nossos superiores. Quando a única alternativa que se apresenta ante o ministério dos sacerdotes da Fraternidade São Pio X é a de um monte de bufões e de trabalhadores sociais formados pelo Bispo diocesano, então temos o dever de optar pela sobrevivência espiritual antes que por uma conformidade servil.
Somos como os passageiros de um navio que afunda. O capitão e a maior parte dos oficiais se tranquilizam periodicamente dizendo-nos que tudo marchará bem enquanto não ponhamos em dúvida a veracidade das cartas de navegação mais recentemente postas em uso. Dentre eles, um dos oficiais tem presença de espírito suficiente para lançar ao mar uma chalupa de salvamento: não se pode condená-lo por haver agido assim.
O Papa não pode pedir-nos que creiamos que a “Tradição viva” da Igreja nos obriga a aceitar a religião pervertida que os Bispos diocesanos nos propõem. O objetivo de sua nova comissão “Ecclesia Dei” é o de elaborar medidas para ajudar os Bispos diocesanos a reintegrar os tradicionalistas ao seio de suas tropas.
Mais cedo ou mais tarde, o Papa terá de dar-se conta de que “os antigos discípulos de Monsenhor Lefebvre” são quase impossíveis de encontrar. Os tradicionalistas não levaram tão longe o seu combate, para agora abandonarem a batalha em nome de um chamado repetido à obediência cega. Na realidade, a raiz do pretenso cisma encontra-se na recusa, por parte das autoridades romanas, de admitir o erro que cometeram na injusta proibição do Seminário de Ecône no ano de 1975.
Mais cedo ou mais tarde esse erro terá de ser corrigido e então se perceberá que o cisma tal como é apresentado não passa de uma criação da imaginação burocrática.
Talvez, agora que os tradicionalistas são considerados fora da Igreja, sejamos melhor tratados. Segundo a lógica ecumênica, obteríamos mais cedo ou mais tarde novamente a autorização para celebrar nas igrejas católicas, como o fizeram os hindus e os budistas em Assis. Até que chegue esse dia, ignoraremos as acusações de cisma, que carecem de sentido. Nossa primeira obrigação é perseverar na fé, sem importar-nos com o que façam os demais4.
THOMAS AISSENEGG
Tradução: TradTalk
Notas de rodapé:
Nota: Se trata na verdade do Papa Pio II; e a bula Execrabilis é de 1460.
Nota: O chamado “caso Hunthausen” refere-se às intervenções da Santa Sé contra Dom Raymond Hunthausen, arcebispo de Seattle, acusado de tolerar graves desvios disciplinares e doutrinais em sua arquidiocese na década de 1980. Após a nomeação de um bispo auxiliar com poderes especiais para limitar sua autoridade (1986), contudo, após fortes pressões públicas, manifestações de apoio ao arcebispo e negociações subsequentes, a Santa Sé acabou por restaurar-lhe amplamente a autoridade no ano seguinte. O episódio é um exemplo da aplicação desigual da disciplina eclesiástica no período pós-conciliar.
Nota: O chamado “Pacto de Metz” refere-se a um entendimento firmado em agosto de 1962, na cidade francesa de Metz, entre o Cardeal Eugène Tisserant, representante da Santa Sé, e o Metropolita Nikodim (Rotov), delegado do Patriarcado de Moscou, sob influência do regime soviético. Segundo esse acordo, observadores da Igreja Ortodoxa Russa participariam do Concílio Vaticano II, com a condição de que o Concílio evitasse condenações explícitas ao comunismo. Apesar dos pedidos formais de centenas de padres conciliares para que o comunismo fosse condenado nominalmente, tal condenação não ocorreu nos documentos finais — exemplo claro de política sobrepondo-se à Doutrina.
Fonte: Le Carillon Catholique, abril de 1995; posteriormente publicado em Iesus Christus. Heri, Hodie et in Saecula, revista do Distrito da América do Sul, nº 59, setembro/outubro de 1998.




PS. no trecho: "O Papa Pio IV já condenara o Vaticano II mil e quinhentos anos antes de seu começo. Em 1458, sua bula Execrabilis condenou qualquer pessoa que ousasse convocar um concílio para alterar qualquer ensinamento dogmático."
Se trata na verdade do papa Pio II; e a bula Execrabilis é de 1460.